Deu na imprensa
 

Alckmin quer doar Linha 4 do metrô e as receitas por 30 anos


Tucanos vão pôr US$ 1 bilhão do Estado e os grupos privados apenas US$ 340 milhões. Em 4 anos os privatistas vão faturar R$ 6 bilhões só com tarifas
 

No processo de desmonte do Estado, iniciado em São Paulo em 1996 com a criação do Programa Estadual de Desestatização (PED), o novo do alvo dos tucanos é a “Linha 4 – Amarela” do metrô, que irá da Estação Luz à Vila Sônia, em construção há um ano, mais uma escandalosa transferência de recursos públicos a um grupo privado. Pela proposta dos tucanos, o Estado investirá quase US$ 1 bilhão, mais de 73% do total dos recursos necessários para a obra, enquanto que apenas US$ 340 milhões ficarão a cargo de quem ficar com concessão da linha por 30 anos.
 

ESQUEMA

No esquema montado pelos tucanos, além dos recursos oriundos das vendas de bilhetes, o grupo privado que ganhar a concessão ficará com todo o rendimento dos empreendimentos associados nas estações e arredores, como publicidades, lojas, estacionamentos, shoppings, entre outros.

“O Estado investe US$ 1 bilhão e nada recebe de contrapartida por 30 anos. Já o investidor privado investe US$ 340 milhões e ficará com toda a receita tarifária da linha 4 e metade das tarifas do sistema metro-ferroviário, além da exploração comercial e veiculação publicitária. Estima-se que, só de tarifas, entre 2008 e 2012, o vencedor da concorrência faturará quase R$ 6 bilhões de reais”, denuncia o deputado estadual Nivaldo Santana (PCdoB-SP), acrescentando ainda que “a privatização de um serviço público da qualidade do Metrô é um exemplo adicional do entreguismo dos tucanos paulistas. É o patrimônio público usado para interesses privados”.

O percurso total da Linha 4 será de 12,8 quilômetros subterrâneos, com 11 estações, sendo que seis serão entregues até 2008: Luz, República, Paulista, Faria Lima, Pinheiros e Butantã. Em 2012, serão entregues as estações Higienópolis, Oscar Freire, Fradique Coutinho, Morumbi e Vila Sônia. A estimativa é de 940 mil usuários/dia. Além da integração com as demais linhas do metrô, a Linha 4 se integrará com a “Linha 7 – Celeste” da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

“Existe uma série de ilegalidades e irregularidades no processo, lesivo ao patrimônio público e à população, caso fosse concretizado. O Tribunal de Justiça reconheceu o alto grau de prejuízo e suspendeu a abertura dos envelopes e todo o processo licitatório desde 19 de maio, quando foi republicado o edital”, afirmou ao HP o diretor de Comunicação do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Xavier Lemos Filho.

Entre os atos lesivos apontados por Xavier está o fato de que o Estado será obrigado a modernizar a linha 7 da CPTM para incrementar o fluxo de usuários, para que seja atendida a meta de mais de 940 mil passageiros/dia. “O sistema ferroviário tem que ser melhorado para beneficiar a população, que merece ser atendida de forma satisfatória, e não simplesmente para viabilizar o lucro de investidor, em que o Estado será obrigado a pagar as viagens mesmo que o número de mais de 900 mil passageiros não seja atingido. O investidor não terá nenhum risco, uma vez que o Estado vai pagar o lucro prometido caso a arrecadação tarifária não atinja a meta estabelecida, durante 30 anos”. Além disso, ressalta o sindicalista, após a conclusão da segunda etapa em 2012, o Estado vai ser obrigado a construir mais duas estações, chegando até Taboão da Serra, município da Grande São Paulo.

Na Linha 4 não haverá operador de trem, uma vez que o sistema será todo automatizado. Fora os seguranças, haverá apenas um funcionário em cada estação, enquanto que atualmente as demais estações contam com 40, em média, para servir a população: na venda de bilhetes, orientando como se conduzir nas estações, indicando o melhor trajeto, atendendo em casos de mal súbito ou de ocorrência de violência, entre outras necessidades e situações.

Antes da tentativa de privatização da Linha 4, os tucanos terceirizaram a recarga do Bilhete Único nas estações do metrô e CPTM. Os trabalhadores terceirizados recebem salário de R$ 350, apenas um terço do salário dos vendedores de bilhetes que são funcionários do metrô, que têm direito ainda a adicional de risco, adicional de férias de 70%, entre outros direitos constantes no acordo coletivo.

ILEGALIDADES

O desembargador João André D’Vicenzo, relator do processo da ação popular movida pelo Sindicato e dez entidades populares contra as irregularidades do processo, concedeu liminar na segunda-feira suspendendo a licitação. Em seu despacho, o desembargador declarou “suspensa a publicação do edital fixando data para a entrega dos envelopes para verificação da habilitação dos concorrentes, na forma do art. 43 inciso I e II da lei 8666/95, e posteriores modificações até que seja publicado o julgamento deste agravo”. Sua decisão se deu “em nome do interesse público e atento às mais elementares regras de prudência no trato com o dinheiro público”.

Com a decisão do Tribunal de Justiça, os metroviários suspenderam a greve que estava marcada para terça-feira, dia 4. “A greve foi suspensa, mas a categoria mantém a mobilização até que seja afastado o risco de privatização e a qualquer momento podemos retomar o movimento de paralisação caso seja necessário”.

“A privatização gera desemprego, desvalorização dos trabalhadores e queda da qualidade do serviço”, resumiu Xavier.


VALDO ALBUQUERQUE

 

*Matéria Publicada  no jornal "Hora do Povo", em 05/07/2006