Tema 1
Conjuntura Internacional
América Latina se levanta
1. O vigoroso
crescimento da resistência dos povos na América Latina à ofensiva
imperialista dos EUA e à globalização neoliberal é o fenômeno mais
marcante e promissor da conjuntura internacional. Os movimentos que
desaguaram em eleições de líderes não alinhados à política de
Washington em vários países sul-americanos continuam a ganhar fôlego.
Baseados na força acumulada pelos movimentos sociais e partidos de
esquerda e centro esquerda nas últimas décadas, vários países
latino-americanos têm alçado ao poder plataformas mudancistas.
2. Ganha força na
América Latina a idéia de integração regional e soberana em detrimento
das intenções neocolonialistas estadunidenses. Talvez a maior
expressão destes novos tempos tenha sido a interrupção da agenda de
implementação da Área de Livre Comércio das Américas, após ativa
defesa de seus interesses nacionais pelos países em desenvolvimento da
região, em especial o Brasil, o que inviabilizou a entrada em vigor da
ALCA já em janeiro de 2005. Em contraposição a ALCA, é impulsionado e
revigorado o esforço pelo pleno funcionamento do MERCOSUL, como
mecanismo de integração regional e a proposta da Aliança Bolivariana
para as Américas (ALBA). Passos concretos já foram dados no sentido da
integração latino-americana, como fica atestado pelo acordo Brasil
Venezuela da refinaria de petróleo em Pernambuco, na constituição da
emissora TELESUR e nas tratativas para constituição de um banco latino
americano de fomento, dentre outras iniciativas.
3. O fôlego do
anseio por mudanças também fica demonstrado na recente eleição de Evo
Morales na Bolívia, por maioria absoluta dos votos, sendo ele o
primeiro presidente indígena deste país. Evo Morales despontou como
principal líder das oposições nos levantes que resultaram na queda do
então presidente Sanches de Lozada. Teve como principal mote de sua
campanha a nacionalização dos recursos naturais bolivianos, em
particular os hidrocarbonetos. Além disso, seus primeiros atos de
governo demonstram o compromisso de integração aos demais países
latino-americanos, em especial Cuba e Venezuela.
4. Temos ainda a
ascensão de lideranças progressistas em países como o Uruguai de
Tabaré Vasquez, líder da oposição contra os partidos tradicionais
daquele país. Cabe destacar o aprofundamento da Revolução Bolivariana
na Venezuela, acontecimento mais relevante em resposta ao
neoliberalismo, liderado por Hugo Chaves, que declara a intenção de
conduzir o processo revolucionário em direção a uma nova experiência
socialista, “o socialismo do século XXI”. Também são positivas
demonstrações como a bem sucedida renegociação das dívidas da
Argentina de Néstor Kichner, que colocaram os interesses do país acima
da grita dos mercados.
5. Enfim, tendo
resistido ao desmonte perpetrado pela implementação das políticas
neoliberais e com especial força na década de 90, os povos latino
americanos vêm num processo de avanço da consciência política,
apostando em alternativas contrárias aos ditames neoliberais e não
alinhadas aos interesses norte-americanos. A América Latina se coloca
como um eixo de resistência e demonstra que o imperialismo não é
invencível.
6. No ano de 2005
tivemos demonstrações claras da incapacidade do sistema neoliberal em
dar perspectivas aos povos. Mesmo em grandes potências econômicas as
contradições afloram, como ficou evidente no caso da revolta dos
jovens dos subúrbios parisienses na França, bem como no rotundo NÃO à
proposta de Constituição neoliberal da União Européia. Ou ainda no
caso do furacão Katrina que pôs a nu a miséria, a exclusão e o descaso
com a população pobre dentro da maior potência imperialista.
7. Frente ao
unilateralismo, às ameaças imperialistas e à imposição do projeto
neoliberal, o aumento da resistência dos povos se impõe como fato
alvissareiro. A resistência não se restringe à América Latina e vem se
manifestando de diferentes maneiras no mundo. No Iraque e no
Afeganistão ela ganha contornos insurrecionais. A resistência armada à
ocupação iraquiana continua mesmo depois das eleições que levaram ao
poder um governo títere dos norte-americanos naquele país e as vozes
pela saída das tropas americanas aumentam em todo o mundo. Na
Palestina, a luta contra a ocupação e os crimes praticados por Israel
tende à radicalização, conforme sinaliza a recente vitória eleitoral
do Hamas.
8. A resistência
dos trabalhadores ao neoliberalismo cresce em todo o mundo. Os embates
de classe estão espalhados por todos os continentes. Junto a toda essa
resistência vem a defesa de uma nova ordem societária. A partir dos
interesses dos trabalhadores é possível lutar e construir uma
sociedade mais justa, o socialismo.
Ofensiva conservadora
9. Todavia, é
ainda poderosa e avassaladora a ofensiva conservadora em todo o mundo.
Os Estados Unidos da América, superpotência hegemônica, e seus aliados
utilizam-se de todos os mecanismos de pressão e agressão para fazer
valer seus interesses às demais nações. O unilateralismo norte
americano, exercido com voracidade desde o fim da União Soviética,
ganhou novo impulso a partir dos atentados terroristas de 11 de
setembro de 2001.
10. Escondidos sob
o falso manto de “combatentes do terrorismo” ou ainda de “defensores
da democracia”, os EUA justificam o desrespeito por organismos
internacionais como a ONU, as guerras, as invasões, as torturas, os
assassinatos em massa, as prisões arbitrárias e todo o tipo de
desrespeito às liberdades individuais. Chegaram mesmo ao acinte de
constituir uma lista de Estados e organizações que acusam de
“terroristas” ou de “colaboradores de terroristas”, aos quais se
outorgam o direito de invadir ou aplicar sanções. As políticas de
“Guerra preventiva” e “Guerra infinita”, preconizadas pela “Doutrina
Bush”, são espadas sob a cabeça dos povos que almejam desenvolvimento,
independência, soberania e paz. A luta pela paz é hoje uma das
principais bandeiras dos trabalhadores.
11. Ao mesmo tempo
em que os EUA invadiram e comandam a ocupação do Iraque e Afeganistão,
colocando sob seu domínio importantes reservas petrolíferas, expandem
sua presença militar para outras regiões do mundo, como demonstram a
recente iniciativa de constituição de base militar no Paraguai e o já
conhecido “Plano Colômbia”, entre outras iniciativas.
12. Os Estados
Unidos também temem o ascenso da China. O crescimento deste país se
verifica nos planos político, econômico e militar. A ascensão da China
vai se configurando num contraponto importante ao unilateralismo dos
EUA e ao imperialismo, favorecendo objetiva e subjetivamente a luta
dos povos pela soberania e efetiva independência econômica, assim como
as perspectivas da revolução bolivariana e a resistência heróica e já
histórica de Cuba socialista.
13. A globalização
neoliberal mostra-se cada vez mais excludente, concentradora de
riquezas e incapaz de prover desenvolvimento equânime das nações e
trazer benefícios aos povos. A investida do capital sobre o trabalho é
brutal, sendo marcante a crescente hipertrofia do capital financeiro,
que tende a sufocar e em certos aspectos já está sufocando o processo
produtivo.