Edição Especial:
Caderno de Teses - Texto Base
Nº 488 - 23/03/2006


Emendas:
a

 

Edições anteriores

 
 
 
 

Tema 1

Conjuntura Internacional

América Latina se levanta

1. O vigoroso crescimento da resistência dos povos na América Latina à ofensiva imperialista dos EUA e à globalização neoliberal é o fenômeno mais marcante e promissor da conjuntura internacional. Os movimentos que desaguaram em eleições de líderes não alinhados à política de Washington em vários países sul-americanos continuam a ganhar fôlego. Baseados na força acumulada pelos movimentos sociais e partidos de esquerda e centro esquerda nas últimas décadas, vários países latino-americanos têm alçado ao poder plataformas mudancistas.

2. Ganha força na América Latina a idéia de integração regional e soberana em detrimento das intenções neocolonialistas estadunidenses. Talvez a maior expressão destes novos tempos tenha sido a interrupção da agenda de implementação da Área de Livre Comércio das Américas, após ativa defesa de seus interesses nacionais pelos países em desenvolvimento da região, em especial o Brasil, o que inviabilizou a entrada em vigor da ALCA já em janeiro de 2005. Em contraposição a ALCA, é impulsionado e revigorado o esforço pelo pleno funcionamento do MERCOSUL, como mecanismo de integração regional e a proposta da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA). Passos concretos já foram dados no sentido da integração latino-americana, como fica atestado pelo acordo Brasil Venezuela da refinaria de petróleo em Pernambuco, na constituição da emissora TELESUR e nas tratativas para constituição de um banco latino americano de fomento, dentre outras iniciativas.

3. O fôlego do anseio por mudanças também fica demonstrado na recente eleição de Evo Morales na Bolívia, por maioria absoluta dos votos, sendo ele o primeiro presidente indígena deste país. Evo Morales despontou como principal líder das oposições nos levantes que resultaram na queda do então presidente Sanches de Lozada. Teve como principal mote de sua campanha a nacionalização dos recursos naturais bolivianos, em particular os hidrocarbonetos. Além disso, seus primeiros atos de governo demonstram o compromisso de integração aos demais países latino-americanos, em especial Cuba e Venezuela.

4. Temos ainda a ascensão de lideranças progressistas em países como o Uruguai de Tabaré Vasquez, líder da oposição contra os partidos tradicionais daquele país. Cabe destacar o aprofundamento da Revolução Bolivariana na Venezuela, acontecimento mais relevante em resposta ao neoliberalismo, liderado por Hugo Chaves, que declara a intenção de conduzir o processo revolucionário em direção a uma nova experiência socialista, “o socialismo do século XXI”. Também são positivas demonstrações como a bem sucedida renegociação das dívidas da Argentina de Néstor Kichner, que colocaram os interesses do país acima da grita dos mercados.

5. Enfim, tendo resistido ao desmonte perpetrado pela implementação das políticas neoliberais e com especial força na década de 90, os povos latino americanos vêm num processo de avanço da consciência política, apostando em alternativas contrárias aos ditames neoliberais e não alinhadas aos interesses norte-americanos. A América Latina se coloca como um eixo de resistência e demonstra que o imperialismo não é invencível.

6. No ano de 2005 tivemos demonstrações claras da incapacidade do sistema neoliberal em dar perspectivas aos povos. Mesmo em grandes potências econômicas as contradições afloram, como ficou evidente no caso da revolta dos jovens dos subúrbios parisienses na França, bem como no rotundo NÃO à proposta de Constituição neoliberal da União Européia. Ou ainda no caso do furacão Katrina que pôs a nu a miséria, a exclusão e o descaso com a população pobre dentro da maior potência imperialista.

7. Frente ao unilateralismo, às ameaças imperialistas e à imposição do projeto neoliberal, o aumento da resistência dos povos se impõe como fato alvissareiro. A resistência não se restringe à América Latina e vem se manifestando de diferentes maneiras no mundo. No Iraque e no Afeganistão ela ganha contornos insurrecionais. A resistência armada à ocupação iraquiana continua mesmo depois das eleições que levaram ao poder um governo títere dos norte-americanos naquele país e as vozes pela saída das tropas americanas aumentam em todo o mundo. Na Palestina, a luta contra a ocupação e os crimes praticados por Israel tende à radicalização, conforme sinaliza a recente vitória eleitoral do Hamas.

8. A resistência dos trabalhadores ao neoliberalismo cresce em todo o mundo. Os embates de classe estão espalhados por todos os continentes. Junto a toda essa resistência vem a defesa de uma nova ordem societária. A partir dos interesses dos trabalhadores é possível lutar e construir uma sociedade mais justa, o socialismo.

 

 

Ofensiva conservadora

9. Todavia, é ainda poderosa e avassaladora a ofensiva conservadora em todo o mundo. Os Estados Unidos da América, superpotência hegemônica, e seus aliados utilizam-se de todos os mecanismos de pressão e agressão para fazer valer seus interesses às demais nações. O unilateralismo norte americano, exercido com voracidade desde o fim da União Soviética, ganhou novo impulso a partir dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

10. Escondidos sob o falso manto de “combatentes do terrorismo” ou ainda de “defensores da democracia”, os EUA justificam o desrespeito por organismos internacionais como a ONU, as guerras, as invasões, as torturas, os assassinatos em massa, as prisões arbitrárias e todo o tipo de desrespeito às liberdades individuais. Chegaram mesmo ao acinte de constituir uma lista de Estados e organizações que acusam de “terroristas” ou de “colaboradores de terroristas”, aos quais se outorgam o direito de invadir ou aplicar sanções. As políticas de “Guerra preventiva” e “Guerra infinita”, preconizadas pela “Doutrina Bush”, são espadas sob a cabeça dos povos que almejam desenvolvimento, independência, soberania e paz. A luta pela paz é hoje uma das principais bandeiras dos trabalhadores.

11. Ao mesmo tempo em que os EUA invadiram e comandam a ocupação do Iraque e Afeganistão, colocando sob seu domínio importantes reservas petrolíferas, expandem sua presença militar para outras regiões do mundo, como demonstram a recente iniciativa de constituição de base militar no Paraguai e o já conhecido “Plano Colômbia”, entre outras iniciativas.

12. Os Estados Unidos também temem o ascenso da China. O crescimento deste país se verifica nos planos político, econômico e militar. A ascensão da China vai se configurando num contraponto importante ao unilateralismo dos EUA e ao imperialismo, favorecendo objetiva e subjetivamente a luta dos povos pela soberania e efetiva independência econômica, assim como as perspectivas da revolução bolivariana e a resistência heróica e já histórica de Cuba socialista.

13. A globalização neoliberal mostra-se cada vez mais excludente, concentradora de riquezas e incapaz de prover desenvolvimento equânime das nações e trazer benefícios aos povos. A investida do capital sobre o trabalho é brutal, sendo marcante a crescente hipertrofia do capital financeiro, que tende a sufocar e em certos aspectos já está sufocando o processo produtivo.

 

voltar