Edição Especial:
Caderno de Teses - Texto Base
Nº 488 - 23/03/2006


Emendas:
a

 

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Tema 1

Conjuntura Nacional

Brasil: continuidade e mudança

14. A eleição de Lula, em 2002, além de representar a particularidade brasileira dos movimentos latino-americanos de resistência se constitui num marco histórico na vida política nacional. Pode-se dizer que o movimento que reuniu amplas forças políticas em torno da candidatura vitoriosa de Lula foi o coroamento de décadas de lutas e de resistência que passaram pela contestação ao regime militar, pela luta por eleições diretas, pela constituição da Frente Brasil Popular, reunindo PT, PSB e PCdoB nas eleições de 1989, pelas jornadas que resultaram no impedimento de Fernando Collor de Mello e, finalmente, na tenaz resistência aos anos de aprofundamento do projeto neoliberal levado a cabo por Fernando Henrique Cardoso. A sólida base social e política constituída ao longo destas batalhas foi o alicerce da candidatura Lula em 2002, tendo ainda agregado parcelas da burguesia descontentes com os rumos do país.

15. A tensão entre continuidade do modelo anterior e mudança se faz sentir com força no interior do governo, cujo caráter contraditório pode ser notado na linha ortodoxa dos posicionamentos teóricos e práticos das equipes que ocupam o Ministério da Fazenda e o Banco Central, em contraposição às orientações e idéias prevalecentes em outras áreas como a Casa Civil, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Itamaraty e no Ministério da Ciência e Tecnologia.

16. Cabe notar ainda que Lula venceu as eleições presidenciais, porém não fez maioria parlamentar nem conseguiu a vitória de governadores aliados nos principais estados da Federação, o que trouxe imediatamente o problema na formação da base de apoio e garantia de governabilidade.

17. O desenrolar destes primeiros três anos de mandato puderam demonstrar as limitações e as possibilidades de avanço contidas num governo com estas características. Demonstrou-se que o governo Lula não reuniu convicção, forças e nem condições políticas para implementar um novo projeto de desenvolvimento que avançasse para a superação do neoliberalismo. Por outro lado, o governo é de resistência ao projeto neoliberal e, como tal, teve conquistas parciais importantes como estancar a sanha privatista que avançou particularmente nos governos tucanos, a inviabilização das negociações da ALCA, a reorientação do BNDES como mecanismo de fomento e incentivo à economia nacional, além da orientação progressista da política externa de maneira a estreitar as relações com países em desenvolvimento, com atenção especial ao fortalecimento do MERCOSUL e integração latino americana.

18. . Cabe destacar que as forças neoliberais, em que pese terem perdido a presidência da República em 2002, nunca estiveram feridas de morte. Ao contrário, no presente momento, estão rearticuladas e na ofensiva política. Tentam pavimentar seu caminho de volta ao centro do poder, utilizando-se politicamente da crise em curso. O vendaval político iniciado com as denúncias de corrupção já se prolonga por meses e tem como pano de fundo a disputa eleitoral que se avizinha. O fato é que, a partir de erros cometidos, ou supostamente cometidos, pelo governo ou por sua principal força dirigente, muitos deles ainda não comprovados, a oposição conservadora encontrou uma brecha para fustigar o governo e as forças de esquerda, buscando desmoralizá-los e voltar ao poder.

19. Frente a esta ameaça, as forças políticas progressistas e movimentos sociais buscaram resistir à investida conservadora, agindo em duas frentes: fazendo gestões para rearticular a base aliada, em especial o núcleo de esquerda da base governista; e realizando mobilizações do movimento social pela apuração das denúncias e contra a desestabilização do governo.

20. A compreensão fundamental é que a rearticulação dos setores neoliberais e a volta dessas forças ao centro do poder serve ao intento de sepultar a possibilidade da criação de um novo projeto de desenvolvimento, que abra caminho para a superação do neoliberalismo.

21. No Brasil para superar o neoliberalismo e construir um rumo novo é necessário um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho. É tarefa urgente reconstruir o Estado Nacional. E este, sob a direção das forças progressistas e dos trabalhadores, poderá ter um papel destacado no desenvolvimento nacional. Para este novo projeto um redirecionamento da política econômica terá de ser feito.

22. A luta pela superação plena do neoliberalismo assume uma dimensão anticapitalista e antiimperialista. Essa luta hoje no Brasil passa pelas seguintes iniciativas:

• Repactuação política e programática das forças que compõem o atual governo com vistas às eleições de 2006, estabelecendo metas de crescimento, de emprego e valorização do trabalho;

• Recomposição das forças de centro esquerda, tendo os partidos de esquerda como núcleo; apoio com independência ao candidato representativo destas forças políticas;

• Vigorosa luta de idéias – para o novo projeto de desenvolvimento com valorização do trabalho – entre os trabalhadores e na sociedade;

• Constantes e vigorosas mobilizações sociais, tendo os trabalhadores como protagonistas, para a consecução das mudanças.

23. As bases para um projeto nacional de desenvolvimento devem levar em conta, dentre outros elementos, a centralidade da ampliação do mercado interno e a importância da valorização crescente do salário mínimo como política de Estado de distribuição de renda e forma de dinamizar a economia.

24. O desenvolvimento do mercado interno é fundamental para um crescimento sustentado: o Brasil tem um potencial gigantesco, ainda a ser explorado, de expansão de seu mercado caseiro. São grandes contingentes da população sem acesso à renda e, portanto, ao consumo. Deve-se elevar substancialmente o nível de emprego, já que o desempenho do PIB depende em grande parte da mão de obra ocupada. É importante levar em consideração e retomar com força o debate acerca da Redução da Jornada de Trabalho sem redução de salários como elemento para impulsionar os índices de emprego, combate ao emprego informal, além de lutar pela reversão da precarização do trabalho e da flexibilização de direitos. Da mesma forma, é imprescindível o investimento na educação dos trabalhadores. Para isso, contribuiria sobremaneira que, vinculado à Redução da Jornada, fossem estipuladas metas de elevação de escolaridade, destinando-se parcelas das horas remuneradas e não trabalhadas ao estudo.

25. Aliado a tais medidas, é necessário ainda a execução de uma ampla Reforma Agrária, valorizando o trabalhador rural e aumentando o emprego no campo; uma Reforma Urbana que privilegie a construção de moradias populares, a integração dos sem tetos nos grandes centros urbanos, o que além de buscar sanar o déficit habitacional, também geraria inúmeros postos de trabalho. Deve também valorizar os serviços e o funcionalismo público. É imprescindível a qualquer projeto soberano de nação a universalização de serviços públicos, gratuitos e de qualidade em áreas como Educação e Saúde.

26. É também importante a busca pela integração latino-americana como elemento indispensável ao desenvolvimento dos países do nosso continente e na consolidação de um bloco de poder contra-hegemônico. A integração não deve se resumir ao plano dos governos, mas deve contar com grande esforço dos movimentos sociais, dos trabalhadores em particular, pela confluência de suas lutas e de seus interesses. O ascenso de movimentos de resistência e de governos progressistas na América Latina vem demonstrando que as lutas sociais e patrióticas se relacionam, tendo como centro a necessidade de superação da hegemonia neoliberal.

27. Neste rumo, o movimento sindical pode e deve jogar um papel maior de protagonista e será preciso trabalhar pela unidade e fortalecimento dos Movimentos Sociais – através da CMS e tendo por base uma plataforma eleitoral mudancista orientada para um novo projeto nacional de desenvolvimento, com soberania e valorização do trabalho, voltado ao mesmo tempo para a integração solidária da América Latina. De tal plataforma deve constar:

• luta pela mudança da política econômica, pleno emprego, redução da jornada de trabalho sem redução de salários, política permanente de valorização do salário mínimo, universalização dos serviços públicos, elevação do nível de escolaridade da classe trabalhadora, reversão do processo de flexibilização, informalização e precarização do mercado de trabalho, fim das terceirizações e cooperativismos, manutenção e ampliação dos direitos sociais, reforma agrária, reforma sindical democrática, repúdio a ALCA, defesa da Paz Mundial, solidariedade a Cuba, à revolução bolivariana, aos povos do Iraque, da Palestina, do Afeganistão, assim como a todos os povos e nações que são hoje vítimas das agressões imperialistas e do unilateralismo estadunidense.

 

 

Herança

28. O governo Lula assumiu em meio a um cenário de incertezas, com uma proposta de mudança frente à herança recebida de dez anos de queda na taxa de investimento público e privado, desequilíbrio das contas externas, elevadas taxas reais de juros, enorme endividamento público em termos de proporção do PIB, taxas inexpressivas de crescimento econômico, altos níveis de desemprego e estagnação dos péssimos indicadores de distribuição de renda. Vale lembrar que no final de 2002 o Dólar batia na casa de R$ 3,80, e o risco país atingia seu ponto mais alto.

29. Quando Lula assumiu o poder os indicadores econômicos eram catastróficos, e agora no começo do ano, já podemos ter uma boa idéia de como terminará a economia brasileira no final do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e compará-lo com o que recebeu de FHC, como se vê na tabela ao lado.

30. A comparação dos 14 itens mostra que houve um avanço substancial nas condições econômicas do País. A única exceção refere-se ao juro nominal médio (Selic), que foi o mesmo em 2002 e 2004. O juro real ( isto é, que leva em conta a expectativa de inflação dos próximos 12 meses) não aumentou porque a expectativa de inflação dos próximos 12 meses era de 5,1% em julho de 2002 e de 4,9% em julho de 2005.

31. Estes números demonstram claramente que as mudanças não traduziram um rompimento com as políticas macroeconômicas do governo anterior, no entanto, foram possíveis a reversão do quadro e uma importante alteração de rumo na economia nacional.

Desempenho do Governo Lula

Ano                                                                        2002                                     2005

1. Crescimento real do PIB                             1,9%                                     3,2%

2. Taxa de inflação                                           12,5%                                    4,9%

 3. Taxa de desemprego                                  11,7%                                   9,4%

4. Taxa de juros média no ano (selic)           19,2%                                  19,2%

5. Exportações (U$ bilhões)                             60,4                                      115,3

6. Importações (U$ bilhões)                             47,2                                       74,5

7. Transações correntes/PIB -                         1,7%                                      1,3%

8. Déficit nominal/PIB                                       10,3%                                     2,3%

9. Superávit primário/PIB                                  3,9%                                      5,0%

10. Dívida líquida/PIB                                        55,5%                                    52,0%

11. Dívida externa/Exportação                          3,5                                          1,7

12. Reservas internacionais liq. (U$ bilhões) 16,3                                        53,0

13. Dívida externa/PIB                                    46,0%                                       33,0%

14. Crédito setor privado/PIB                        23,1%                                       31,0%

 

Reversão Social e Econômica

32.É necessária a mudança na política macroeconômica para que o país possa crescer e se desenvolver, criando as condições favoráveis ao desenvolvimento sustentável. As políticas sociais de distribuição de renda jogaram papel importante na recuperação da renda nacional, mas não é o que vai desenvolver o país. Destravar o Brasil e investir em infra-estrutura irá potencializar a atual política de distribuição de renda.

33. Com relação à reconstrução do Estado, são positivas as medidas de abertura de concursos públicos e estabelecimento de negociação nacional com os servidores públicos. Entretanto, o país ainda está longe de um quadro otimista nesta área. No Brasil, os trabalhadores públicos representam somente 1% da População Economicamente Ativa (PEA), enquanto na Argentina e 2,5%, na Bolívia 5,5%, nos EUA 2,0%, na França 8,6% e na Espanha 4,7%( ). Este quadro mostra claramente os obstáculos para que se implemente uma intervenção eficiente do Estado.

34. Em relação ao mercado de trabalho, merece registro a geração de empregos formais. De uma média mensal de 63.535 mil postos de trabalhos gerados com carteira assinada em 2002 passou-se para 152.687 mil em 2005, totalizando um montante de 3,7 milhões nos três anos de governo. Em seus 32 primeiros meses o governo Lula criou 324% mais empregos formais que FHC em 8 anos. As taxas de desemprego aberto recuaram em torno de 2%, entre 2003 e 2005, na maioria das regiões metropolitanas pesquisadas, com exceção de Recife que manteve o mesmo patamar (13,8%).

35. O tema do salário mínimo, isto é, o da necessidade da construção de uma política de valorização do piso nacional, voltou à baila neste governo. Após dois reajustes tímidos do salário mínimo (em 2003 e 2004), o piso teve um aumento real de 8,23% em 2005, e em 2006 o reajuste foi de 16,7%, com aumento real de 12,07%. Os reajustes reais do salário mínimo juntamente com a redução dos preços da cesta básica fizeram com que praticamente em todas as capitais pesquisadas houvesse uma redução do comprometimento do salário mínimo na compra da referida cesta. E o governo montou uma Comissão Quadripartite para o estabelecimento de uma política de valorização de longo prazo, na qual estão presentes os representantes do governo, Centrais Sindicais, empresariado e aposentados. É importante observar que pela primeira vez em nossa história o movimento sindical assinou um protocolo de intenções com o governo num programa de recuperação do Salário Mínimo.

36. O governo aumentou os recursos destinados à transferência de renda em R$ 13,1 bilhões e já estão garantidos no orçamento de 2006, enviado ao Congresso Nacional, 8,3 bilhões de reais para o atendimento de 11 milhões de famílias. No programa Nacional de Agricultura Familiar – PRONAF, foram destinados R$ 6,1 bilhões de reais no biênio 2004/2005, uma expansão de 154% em relação aos R$ 2,2 bilhões aplicados no biênio 2002/2003. Para safra de 2005/2006, a dotação prevista no orçamento é de R$ 9 bilhões.

37. O bolsa-família é outro programa cujos indicadores mostram um avanço considerável, apesar das suas limitações. O valor transferido passou de R$ 3,4 bilhões em 2003 para R$ 6,5 bilhões em 2005; e o número de famílias atendidas passou de 3,6 milhões em 2003 para 7,3 milhões até julho de 2005 (sendo que a meta para o ano de 2005 é de 8,7 milhões de famílias).

 

Brasil: a mudança que se constrói

38. A disputa de projetos de nação existente na sociedade não deve se encerrar com as próximas eleições presidenciais. Ao contrário, em que pese o resultado eleitoral ser um momento determinante para o próximo período, a luta pela construção de um projeto nacional de desenvolvimento tende a continuar por longo tempo.

39. É necessário que este debate ganhe musculatura e gere iniciativas práticas. O movimento sindical deve se organizar em torno de um programa concreto a ser defendido. Devemos ser os porta-vozes dos interesses dos trabalhadores no embate com os capitalistas, sendo protagonistas na luta política.

40. A construção de um projeto de desenvolvimento nacional soberano, integrador da América Latina, que tenha como centro a valorização do trabalho e a distribuição de renda continua na ordem do dia.

 

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