espaço Aberto
A boa e velha São Bento está em
A.T.O.
Para muitos isso é
fácil, mas até pouco tempo eu não conseguia ficar poucas horas sem o
uso do álcool. Começou sem saber, só aos finais de semana, e quando
percebi já estava numa clínica de tratamento para dependência química.
Lembro quando era
obrigado a beber todos os dias, pois havia perdido o meu livre
arbítrio. Levantava umas 6h da manhã para levar minha filha à escola,
e parava para abastecer, não o carro, mas o meu corpo que precisava do
químico, tremia com calafrios, muitas vezes vomitando, e só depois da
terceira lata começava a ficar normal. Mas não ficava nisso, antes de
entrar no serviço, às 7h30, já tinha ido umas oito latas de cerveja.
E começava o
sofrimento, pois no serviço não dava para beber. O pessoal começava a
pegar no meu pé, e assim eu contava as horas para o fim do trabalho.
Saía do serviço e a primeira coisa que fazia era ir à padaria e entrar
no meu mundo, que era beber, e de vez em quando um pão na chapa com
bastante sal.
Em casa achava que
bebia escondido de minha esposa e de minha filha, esperava elas
dormirem, falava que ia comer alguma coisa na cozinha e começava
novamente. Aí, no mínimo, eram mais umas 15 latas de cerveja.
Um dia meu
supervisor me levou para falar com a assistente social da Cia. Então
ela me falou que alcoolismo é uma doença incurável, progressiva, fatal
e reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, mas no estágio em que
estava, duvidei e continuei o que pensava que era vida. Acreditava que
se eu não bebesse, morreria.
Fui obrigado a
freqüentar o grupo de apoio na Cia e o A.A. (Alcoólicos Anônimos). Só
que eu não queria parar de beber. Não tinha coragem para contar à
minha esposa, por vergonha, mas não tinha vergonha de ficar louco e
colocar a minha vida e da minha família em risco ao dirigir o carro
bêbado, além de outras coisas.
Na noite que minha
esposa ia me colocar para fora de casa pelo fato de não agüentar mais
o meu alcoolismo, corri para uma clínica, pensando que ela me daria
mais uma chance. Como ela estava freqüentando o Al-Anon, deixou que
minha ficha caísse no tempo certo.
Passei 45 dias em
uma clínica para dependência química. No começo louco para beber, mas
de repente me perguntaram se eu tinha visto a minha filha crescer. Ali
comecei a pensar na vida que eu estava levando e perguntei: será que o
PAI do céu me fez só para eu beber? Será que Ele não quer que eu viva
em harmonia comigo e com meus semelhantes? Depois disso, só por hoje,
vejo a vida diferente.
Tenho meus
defeitos de caráter, mas hoje convivo com eles, tentando me corrigir,
pedir desculpas. E com a graça de um Poder Superior estou limpo por
mais de quatro anos. Hoje quero continuar sem beber e é só por hoje.
Freqüento o A.A quase diariamente, e o grupo de Apoio da Cia., e ainda
tento levar a mensagem que um dia meu amigo me deu, me levando para
falar com a assistente social. Hoje sei que o Alcoolismo é uma doença
física, mental e espiritual, que se não for detida leva à loucura, à
morte prematura ou à cadeia. Lembro eu dormindo no trânsito e
acordando com policiais ao meu lado e eu com aquela velha mentira “È
Seu Guarda...abusei só hoje... não acontecerá mais...”.
Peço que o
Sindicato divulgue mais o programa de Dependência Química da Cia, pois
graças a ele e ao AA estou tendo uma vida, um lar, uma família. O
Alcoolismo é uma doença que afeta em média uma a cada 10 pessoas, e a
cada 10 que bebem, uma volta a beber no outro dia (eu era uma delas).
É importante não esperar que o funcionário seja demitido para intervir
no processo, se podemos passar a informação antes.
Hoje posso dizer
que não precisei beber, não bebi e que essa programação funciona, só
por hoje! Pois o ontem é apenas um sonho, e o amanhã apenas uma visão,
mas o hoje, bem vivido, faz de cada ontem um sonho de felicidade e de
cada amanhã uma visão de esperança. Portanto, olhe bem para este dia.
Marçal, MT5