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Nº 491 - 26/04/2006


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espaço Aberto

A boa e velha São Bento está em A.T.O.

Para muitos isso é fácil, mas até pouco tempo eu não conseguia ficar poucas horas sem o uso do álcool. Começou sem saber, só aos finais de semana, e quando percebi já estava numa clínica de tratamento para dependência química.

Lembro quando era obrigado a beber todos os dias, pois havia perdido o meu livre arbítrio. Levantava umas 6h da manhã para levar minha filha à escola, e parava para abastecer, não o carro, mas o meu corpo que precisava do químico, tremia com calafrios, muitas vezes vomitando, e só depois da terceira lata começava a ficar normal. Mas não ficava nisso, antes de entrar no serviço, às 7h30, já tinha ido umas oito latas de cerveja.

E começava o sofrimento, pois no serviço não dava para beber. O pessoal começava a pegar no meu pé, e assim eu contava as horas para o fim do trabalho. Saía do serviço e a primeira coisa que fazia era ir à padaria e entrar no meu mundo, que era beber, e de vez em quando um pão na chapa com bastante sal.

Em casa achava que bebia escondido de minha esposa e de minha filha, esperava elas dormirem, falava que ia comer alguma coisa na cozinha e começava novamente. Aí, no mínimo, eram mais umas 15 latas de cerveja.

Um dia meu supervisor me levou para falar com a assistente social da Cia. Então ela me falou que alcoolismo é uma doença incurável, progressiva, fatal e reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, mas no estágio em que estava, duvidei e continuei o que pensava que era vida. Acreditava que se eu não bebesse, morreria.

Fui obrigado a freqüentar o grupo de apoio na Cia e o A.A. (Alcoólicos Anônimos). Só que eu não queria parar de beber. Não tinha coragem para contar à minha esposa, por vergonha, mas não tinha vergonha de ficar louco e colocar a minha vida e da minha família em risco ao dirigir o carro bêbado, além de outras coisas.

Na noite que minha esposa ia me colocar para fora de casa pelo fato de não agüentar mais o meu alcoolismo, corri para uma clínica, pensando que ela me daria mais uma chance. Como ela estava freqüentando o Al-Anon, deixou que minha ficha caísse no tempo certo.

Passei 45 dias em uma clínica para dependência química. No começo louco para beber, mas de repente me perguntaram se eu tinha visto a minha filha crescer. Ali comecei a pensar na vida que eu estava levando e perguntei: será que o PAI do céu me fez só para eu beber? Será que Ele não quer que eu viva em harmonia comigo e com meus semelhantes? Depois disso, só por hoje, vejo a vida diferente.

Tenho meus defeitos de caráter, mas hoje convivo com eles, tentando me corrigir, pedir desculpas. E com a graça de um Poder Superior estou limpo por mais de quatro anos. Hoje quero continuar sem beber e é só por hoje. Freqüento o A.A quase diariamente, e o grupo de Apoio da Cia., e ainda tento levar a mensagem que um dia meu amigo me deu, me levando para falar com a assistente social. Hoje sei que o Alcoolismo é uma doença física, mental e espiritual, que se não for detida leva à loucura, à morte prematura ou à cadeia. Lembro eu dormindo no trânsito e acordando com policiais ao meu lado e eu com aquela velha mentira “È Seu Guarda...abusei só hoje... não acontecerá mais...”.

Peço que o Sindicato divulgue mais o programa de Dependência Química da Cia, pois graças a ele e ao AA estou tendo uma vida, um lar, uma família. O Alcoolismo é uma doença que afeta em média uma a cada 10 pessoas, e a cada 10 que bebem, uma volta a beber no outro dia (eu era uma delas). É importante não esperar que o funcionário seja demitido para intervir no processo, se podemos passar a informação antes.

Hoje posso dizer que não precisei beber, não bebi e que essa programação funciona, só por hoje! Pois o ontem é apenas um sonho, e o amanhã apenas uma visão, mas o hoje, bem vivido, faz de cada ontem um sonho de felicidade e de cada amanhã uma visão de esperança. Portanto, olhe bem para este dia.

Marçal, MT5

 

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